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Ilustrações de Jesus São Contrárias à Bíblia? » Brian Schwertley


Ilustrações de Jesus São Contrárias à Bíblia? » Brian Schwertley

Em nossos dias é muito comum ver figuras de Cristo nas igrejas e nas casas. Imagens do Salvador são comumente encontradas em vitrais, entradas de igrejas, salas de aula de escolas cristãs, salas de visita, capas de livros, programas carismáticos de televisão, publicidades de igrejas, Bíblias de família e na parede por trás do púlpito.

A grande maioria das livrarias cristãs vende uma larga variedade de figuras de Jesus. Há de tudo: do efeminado Messias do norte da Europa à grotescamente musculosa interpretação de Jesus do tipo-Hulk. Mesmo em igrejas reformadas (que devem saber melhor) ilustrações do servo sofredor são bastante comuns nos materiais da escola dominical. As representações do Filho de Deus violam as Escrituras ou essas figuras são meramente obras de arte perfeitamente aceitáveis contanto que não sejam adoradas ou usadas como um auxílio à adoração? Tenha em mente que igrejas protestantes vis que usam ilustrações de Cristo insistem que as figuras não são usadas no culto religioso de forma alguma. Elas no máximo (dizem-nos) são meramente representações artísticas usadas para propósitos educacionais.

Enquanto muitas pessoas que usam figuras de Jesus são muito sinceras e não se dobram a essas imagens, contudo o uso dessas imagens é contrário à lei e pecaminoso. Há muitas razões pelas quais o uso das figuras de Cristo é contra as Escrituras.

I) Primeiro, o uso das figuras de nosso Senhor é uma violação do segundo mandamento. Esse mandamento diz: “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem, e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20:4-6).

Esse mandamento proíbe uma fileira de ídolos ou imagens de Deus ou qualquer imagem de qualquer coisa criada. Ele também proíbe o uso de imagens como auxílio ao culto ou devoção. Os papistas, por exemplo, diriam que eles não adoram um crucifixo ou estátua de Cristo, mas que tais imagens são auxílios ou meios através dos quais se adora o Filho de Deus. “Os romanistas fazem imagens de Deus o Pai, pintam-no nas janelas de suas igrejas como um velho; e uma imagem de Cristo no crucifixo; e, porque isto é contra a letra deste mandamento, eles sacrilegamente apagam-no de seu catecismo, e dividem o décimo mandamento em dois”.[i]

Protestantes modernos que usam figuras de Jesus ressaltam que diferentes dos romanistas, ortodoxos orientais e anglicanos da alta igreja não se dobram diante nem adoram figuras do Senhor. Eles argumentam que suas ilustrações são puramente educacionais, ou artísticas, ou um objeto para memória histórica. Além disso, é observado que figuras de pessoas, cenas históricas, figuras famosas e animais são universalmente aceitas como permissíveis entre os protestantes contanto que não se dobre os joelhos diante dessas coisas, nem se lhes preste adoração, nem se lhes sirva. Portanto, ter uma ilustração de Jesus não é diferente de ter uma ilustração de Abraão Lincoln ou de um amigo íntimo. Embora este argumento típico faça sentido para muitas pessoas, é preciso que seja enfaticamente rejeitado pelas seguintes razões:

(1) Jesus não é como Abraão Lincoln ou qualquer outra pessoa, porque Ele é tanto Deus quanto homem em uma pessoa. Por isso, qualquer imagem de nosso Senhor seria automaticamente de natureza religiosa ou devocional. Sendo assim, isso cairia imediatamente sob o perímetro bíblico do princípio regulador do culto. Em outras palavras, uma ilustração do Salvador não pode ser considerada como um item que pertença à esfera de coisas indiferentes (adiaphora). Se os crentes devem usar figuras do Senhor, eles precisam encontrar autorização divina da palavra de Deus para seu uso.

Há autorização divina para representações pictóricas do Messias? Não, não há. Não há nenhum mandamento para que se faça figuras de nosso Senhor. De fato, tais figuras claramente violam o segundo mandamento, pois uma verdadeira figura de Jesus deveria evocar adoração no crente. Se uma representação pictórica traz pensamentos de amor, devoção, e louvor ao Filho de Deus, então obviamente ela é um auxílio ou meio de adoração mesmo que as pessoas não estejam dobrando-se diante da figura.

(2) A Palavra de Deus não dá aos crentes informação suficiente para que se faça uma representação fiel da aparência física de Cristo. Isaías nos diz que, com respeito à aparência exterior do Salvador, não há nada de beleza que seja deleitável aos olhos (ver 53:2). No livro de Apocalipse há uma descrição apocalíptica do Senhor exaltado (por exemplo: Ap 1:13-17) e o Salvador como um Cordeiro que tinha sido morto (Ap 4:6). Contudo, nenhum erudito competente consideraria essas declarações apocalípticas como descrições literais de Cristo. Elas são visões proféticas vívidas que tem a intenção de ensinar à igreja uma rica teologia concernente ao nosso Senhor e Sua obra. Os apóstolos, que passaram três anos com Jesus, que sabiam exatamente como era sua face humana, que tinham uma forte lembrança de Sua pessoa e obra, poderiam ter trabalhado com artistas para deixarem à Igreja um retrato acurado do Messias. Todavia, eles se recusaram a deixar à Igreja tal retrato. Por isso, é óbvio que Deus não sanciona retratos de Seu Filho.

II) Segundo, como nenhuma ilustração acurada de Cristo pode ser produzida por homem, todas as figuras do Salvador são representações falsas do Filho de Deus. Mas (conforme alguns podem objetar), se é permitido fazer representações de batalhas famosas e mesmo dos apóstolos, por que é errado fazer o mesmo com o Messias? Mais uma vez devemos lembrar que Jesus é totalmente único. Embora ele tenha um real corpo humano e alma (1 Jo 1:1-4), “todavia sua natureza humana subsiste em sua pessoa divina, que nenhuma figura pode representar (Sl 45:2)”.[ii] O Filho de Deus é diferente porque Ele somente é o supremo objeto de nossa fé. Isso significa que tudo o que devemos crer acerca dEle precisa vir unicamente de revelação divina. “Tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14:23). Qualquer figura do Senhor que seja baseada na imaginação do homem é culto da vontade, pois estabelece uma invenção humana no lugar ou junto com os dados bíblicos concernentes a Cristo. Quando a fé é dirigida a fantasias humanas em lugar ou junto da fé na revelação divina, a religião bíblica é degradada com humanismo.

Como é possível Jesus, que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6), ou o Santo Espírito, que é “o Espírito da verdade” (Jo 16:13), ser honrado ou se agradar com fantasias humanas a respeito do Filho? O fato de que nosso Senhor é Deus e homem em uma pessoa torna todas as representações humanas do Filho totalmente inapropriadas e até abomináveis. Fazer uma versão, uma falsificação ou versão falsa do Messias é ainda mais ímpio do que fazer uma versão falsa da Bíblia. Além disso, o que pensaria algum dos apóstolos sobre as muitas imagens pervertidas do Salvador que são comuns hoje (ex: o Jesus efeminado louro de olhos azuis, o Jesus “black power”, o Jesus “hippie” hollywoodiano, o Jesus do cinema evangélico, o Jesus musculoso das livrarias)? Pedro e João ficariam totalmente chocados com tal lixo irreverente, desrespeitoso, não-bíblico, humanístico, blasfemo. E mais, como os artistas não podem formar uma representação fiel da aparência física do Salvador, suas interpretações do Senhor são inevitavelmente influenciadas por sua teologia e visão de mundo. Muito das pinturas populares, gravuras e desenhos que são vistos em livros e Bíblias familiares hoje são produtos do liberalismo do século dezenove, feminismo “cristão”, arminianismo e formas pietistas de antinomismo. Esses falsos sistemas teológicos apresentam uma figura distorcida, de um lado só, de nosso Senhor. Ele geralmente é apresentado como o Jesus gentil, o manso e humilde professor que enfatizou o amor e a paternidade de Deus; que era um amigável professor de ética; que nunca se tornou irado contra pecadores ou pregou sobre o pecado, julgamento ou ira por vir. J. G. Vos escreve: “Talvez mais pessoas vivas hoje tenham derivado suas idéias do Jesus Cristo dessas figuras tipicamente “liberais” do que derivado suas idéias do Jesus da própria Bíblia. Tais pessoas inevitavelmente pensam mais de Jesus como uma pessoa humana, do que pensam dEle de acordo com o ensino bíblico como uma pessoa divina com uma natureza humana. O efeito inevitável da aceitação popular de figuras de Jesus é superenfatizar sua humanidade e esquecer ou negligenciar sua deidade (o que, é evidente, nenhuma figura pode retratar)”.[iii]

Da mesma forma, figuras de nosso Senhor perpetuam a falsa doutrina pré-milenista de que o Messias não está presentemente reinando como Rei à direita de Deus. Muitos evangélicos crêem que o Senhor não governa realmente sobre a terra até a segunda vinda. Teologicamente, eles vêem Jesus da mesma maneira como Ele era em seu estado de humilhação. O apóstolo Paulo rejeita tal pensamento. Ele diz: “...se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo” (2 Co 5:16). Nós vivemos na era pós-ressurreição. O Messias não é mais o servo sofredor manso e submisso. Agora Ele é o cavaleiro montado no cavalo branco, o rei vitorioso, que está glorificado, que tem todo o poder no céu e na terra (Mt 28:19). A Bíblia inteira e nada além da Bíblia deve informar nossa compreensão de Cristo. Todo aspecto de sua pessoa e obra é objeto de nossa fé. Qualquer coisa que coloque uma invenção humana, fantasiosa, ou uma falsa imagem de nosso Senhor diante de nossos olhos ou dentro de nossas mentes não fortalece a fé bíblica, mas a corrompe e a degrada. Se você quer ver o Salvador, então estude, medite e memorize as Escrituras, pois ali dentro o Messias é revelado em toda a sua glória. Dunham escreve: “Não é legítimo ter figuras de Jesus Cristo ... porque, se isso não suscitar devoção, é em vão, se suscitar devoção, é uma adoração através de uma imagem ou figura, e assim uma quebra palpável do segundo mandamento”. [iv]

III) Terceiro, todas as figuras do Salvador implicitamente promovem a antiga heresia de Nestorius, que separou as duas naturezas de Cristo: a humana da divina.[v] Quando os apóstolos olhavam para Jesus eles contemplavam o Deus-homem. Dessa forma o apóstolo João podia escrever: “E o verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1:14). Junto com o fato de que figuras do Filho de Deus são impressões falsas, elas também não podem retratar a natureza divina do Messias. Portanto, elas não apenas retratam-no infinitamente menos do que Ele era, é e será; mas também o depreciam de Sua glória divina. Elas implicitamente ensinam uma falsa teologia de Cristo. Esta observação é uma das razões primárias porque a igreja primitiva condenou figuras de Jesus. Um conselho maior em Constantinopla (A.D. 754) decretou: