• Os Puritanos

Fazei isto em memória de mim

A Ceia do Senhor é a mais doce de todas as ordenanças:


1. Por causa da ocasião em que foi instituída. "O Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão." Foi a noite mais escura que já existiu neste mundo, e ainda assim a mais brilhante – a noite em que Seu amor pelos pecadores foi submetido à mais severa prova. Que maravilha que Ele se lembre de nosso consolo em tal hora!


2. Porque é uma ordenança para o crente. É dever de todos os homens orar. Deus ouve os corvos quando eles choram, por isso com certa frequência ouve até as orações dos homens não convertidos (Salmo 107; Atos 8:22). É dever de todos os homens ouvir o evangelho pregado. "A vós, ó homens, clamo, a minha voz se dirige aos filhos dos homens" (Pv 8:4). Mas a Ceia do Senhor é o pão dos filhos; destina-se apenas àqueles que conhecem e amam ao Senhor Jesus.


3. Porque Cristo é o começo, o meio e o fim disso. "Fazei isso em memória de mim" (I Co. 11:24); “Anunciais a morte do Senhor até que Ele venha” (I Co. 11:26). Existem muitos sermões em que Cristo não está presente do começo ao fim; existem muitos livros onde você não pode encontrar a fragrância de Seu nome: mas não pode haver um sacramento onde Cristo não esteja presente do começo ao fim. Cristo é o Alfa e o Ômega da Ceia do Senhor; Cristo é tudo e Ele crucificado. Essas coisas dão uma doçura peculiar ao pão partido e ao vinho derramado.


Temo que a Ceia do Senhor seja profanada de maneira terrível entre vocês. Muitos participam vivendo em pecados inegáveis ou negligenciando deveres concretos. Muitos participam e sabem que nunca foram convertidos; muitos que em seus corações ridicularizam as próprias ideias sobre conversão. A comunhão indigna é um pecado terrível; por causa disso, Deus é grandemente provocado a retirar Seu Espírito de você, a visitá-lo com o olhar severo da providência e selá-lo até o dia da perdição. Eu me tornei seu inimigo porque digo a verdade? Trate honestamente com sua alma e ore sobre o que estou escrevendo agora; e Aquele que abriu o coração de Lídia, abra seu coração enquanto eu explico.


I. Ele toma o pão e o vinho ― Quando o ministro oferece o pão e o vinho aos que estão à mesa, isso representa Cristo sendo oferecido gratuitamente aos pecadores, e até mesmo ao dirigente. Receber o pão e o vinho significa: alegremente, recebo o ferido e ensanguentado Salvador como meu Fiador. O ato de tomar o pão e o vinho é um ato de se apropriar; este ato está dizendo diante de Deus, e anjos, e homens, e demônios: "Eu corro para o Senhor Jesus Cristo como meu refúgio." Ao entrar na arca, Noé realizou um ato de apropriação. Que outros voem para o topo de suas casas, para seus castelos e torres, para as rochas escarpadas, para o topo das montanhas mais altas, mas quanto a mim, eu creio na palavra de Deus, e corro para a arca como meu único refúgio (Hb. 11:7). Quando o homicida fugia para a cidade de refúgio, isso era um ato de apropriação. Ao entrar quase sem fôlego nos portões de Hebron, seus amigos podiam gritar para ele: Fuja para o deserto! ou, fuja para além do Jordão! Mas, diria ele, eu creio na Palavra de Deus, que apenas estarei seguro dentro destes muros; esta é minha única cidade de refúgio, só aqui devo me esconder! (Josué 20). Quando o israelita trazia uma oferta do rebanho, quando o sacerdote a atava com cordas às pontas do altar, o ofertante impunha as mãos sobre a cabeça do cordeiro: este era um ato de apropriação, tanto quanto de dizer, eu considero este cordeiro como morrendo por mim. O mundo pode dizer: Como isso pode salvá-lo? Vá, conserte sua vida, dê esmolas aos pobres. Mas ele diria: Eu creio na palavra de Deus; eu não desejo sorver meus próprios pecados, eu os coloco sobre o Cordeiro de Deus (Lv 1: 4). Quando a mulher, trêmula, veio por trás de Jesus e tocou a orla de suas vestes, este também foi um ato de apropriação. Seus amigos podiam dizer-lhe: Vá e busque outros médicos, ou espere até que esteja melhor. Não, ela disse: “Se eu apenas lhe tocar as vestes, ficarei curada” (Marcos 5:28). No Salmo 42, os inimigos de Davi lhe diziam continuamente: "Onde está o teu Deus?" Isso fez suas lágrimas serem seu alimento noite e dia. Foi como uma espada penetrando até seus ossos. Mas no Salmo 43 ele reúne coragem e diz: "Irei até o altar de Deus", onde o cordeiro foi morto; e então ele diz: "A Deus, que é a minha grande alegria." Você diz que não há Deus: Mas veja, eis que eu tomo este cordeiro como tendo morrido por mim e, portanto, Deus é o meu Deus. No Cântico de Salomão, quando a noiva encontrou AQUELE a quem sua alma amava, ela diz: "Agarrei-me a ele e não o deixei ir embora." Esta foi a verdadeira fé da apropriação. O mundo pode dizer a ela: "Venha por aqui e mostraremos outros amantes, mais bonitos do que os seus amantes." Não, disse ela: "Agarrei-me a ele e não o deixei ir embora”. Este é meu amado e este é meu amigo (Cantares 3: 4).


É exatamente assim, amados, o significado de receber o pão que é partido e o vinho que é servido à mesa do Senhor. É o ato de apropriação mais solene de toda a sua vida. É declarar por sinais: "Eu entro na arca; eu fujo para a cidade de refúgio; coloco minha mão sobre a cabeça do Cordeiro; eu toco a orla de Sua vestimenta; eu considero Jesus como meu Senhor e meu Deus; eu o seguro, e pela graça eu nunca o deixarei ir." É uma ligação deliberada com Cristo, por meio de símbolos, na presença de testemunhas. Quando uma noiva aceita dar sua mão em casamento diante de muitas testemunhas, é uma declaração solene para todo o mundo que ela aceita o noivo como seu único esposo. Então, na Ceia do Senhor, quando você recebe o pão e o vinho, você declara solenemente que, abandonando todos os outros, de coração você recebe o Senhor Jesus como seu único Senhor e Salvador.


Se essas coisas são verdadeiras, muitos não deveriam ficar nesta mesa santa. Muitos de vocês sabem que uma obra da graça nunca foi iniciada em seus corações; você nunca foi despertado para tremer por sua alma; você nunca foi despertado para orar dizendo, "Deus, tem misericórdia de mim, pecador"; você nunca foi levado a "alegrar-se, crendo em Deus". Oh, amado, deixe-me dizer com toda a ternura, esta mesa não é para você. Muitos de vocês sabem que não estão no estado em que deveriam estar se morressem. Você diz: "Espero voltar antes de morrer." Isso mostra que seus pecados ainda não estão cobertos – que você não nasceu de novo – e que ainda não correu para a esperança que lhe está proposta. Esta mesa não é para você. Alguns de vocês sabem bem que tiveram certa convicção de pecado, mas ela morreu. As paredes da casa de Deus viram você tremer à beira da eternidade, mas você nunca chegou a ser levado à "paz que vem pela fé" – à "paz com Deus". Você afogou suas inquietações no turbilhão dos negócios ou dos prazeres. Você recuou. Sua integridade é como a "nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa" (Oséias 13:3). Esta mesa não é para você. Falo para o seu senso de honra e honestidade ordinários. Nas coisas mundanas, você mentiria por palavras ou por sinais? E seria uma questão superficial contar uma mentira relativa às coisas eternas? Você declararia deliberadamente, enquanto come do pão e bebe do vinho, o que você sabe ser uma mentira? Oh, ore pensando no relato de Ananias e Safira, e trema diante disso (Atos 5: 1-11). Que não seja dito no céu de muitos: "Não mentiste aos homens, mas a Deus?"


Uma palavra para as almas trêmulas e crentes. Este banquete está difundido para você. “Comam, ó amigos; bebam, sim, bebam abundantemente, ó amados”. Se você tem fé como um grão de mostarda, venha. Se você é "fraco na fé", os ministros são ordenados a recebê-lo. Se na manhã do sábado da comunhão, mesmo pela primeira vez em sua vida, Cristo apareceu pleno e livre para você, para que você não pudesse deixar de crer nEle, não hesite em vir. Venha até a mesa, apoiando-se no Amado, e aí você terá o lugar de João. Você se apoiará pacificamente em Seu peito.


II. Ele come o pão e bebe o vinho — "Tomai e comei" — "Bebei dele todos". Comer e beber nesta ordenança implica alimentar-se de Cristo. Diz-se do pão que “fortalece o coração do homem”, e do vinho, que “alegra o coração do homem”. O pão é o sustento da vida, e o vinho é mui revigorante para aqueles que, como Timóteo, sofrem de enfermidades frequentes. Eles são as maiores bênçãos nutritivas que o homem possui. Alimentar-me deles na Ceia do Senhor é o mesmo que dizer: Eu me alimento de Jesus, como a minha força; “no Senhor tenho justiça e força”. Tomar o pão na mão é dizer: "Ele é feitura de Deus para minha justificação". Alimentar-se disso é dizer: "Ele é feitura de Deus para minha santificação".


Quando Israel se alimentou do maná por quarenta anos e bebeu água da rocha, todos foram fortalecidos na jornada através do deserto inóspito. Esta era uma figura de crentes viajando por este mundo. Eles se alimentam diariamente da força de Cristo; Ele é seu maná diário; Ele é a rocha que os acompanha. Quando a noiva se sentou à sombra da macieira, ela disse: "Seu fruto é doce ao meu paladar" (Ct 2:3); e de novo: "Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, pois desfaleço de amor" (Ct 2:5). Crente, esta é uma figura sua. Eis como você é protegido, nutrido, e renovado pelo Salvador. Ele conforta seu coração e o confirma em todas as boas palavras e obras. No Salmo 36, quando Davi fala de homens que vivem em confiança sob as asas do Senhor Jesus, ele acrescenta: "Eles se fartarão das gorduras da tua casa, e tu os farás beber da corrente das tuas delícias” (Sl 36:8). Filhinhos, vocês sabem por experiência o que isso significa. Quando foi levado a crer no Filho de Deus, você foi adotado em Sua família, alimentado com o pão dos filhos e seu coração foi enchido dos santos prazeres de Deus. A mesma coisa é representada ao se alimentar de pão e vinho da Ceia. É uma declaração solene aos olhos de todo o mundo, de que você foi colocado nas fendas da rocha ferida, e que está se alimentando do mel entesourado ali. É declarar que você se sentou sob a sombra de Cristo, e que é consolado e nutrido pelo fruto daquela árvore da vida. Está dizendo: "Passei a confiar sob a sombra de Suas asas e agora bebo do rio de Suas delícias." É uma doce declaração de sua própria impotência e fraqueza, e que Cristo é toda a sua força – toda a sua vida.