A Teologia e os Teólogos da Escócia: Resgatando a Riqueza da Tradição Reformada
- Os Puritanos

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A rica tradição teológica escocesa é frequentemente subestimada, mas guarda respostas vitais para os dilemas dogmáticos e eclesiológicos da atualidade. Em um recente episódio do podcast Christ the Center, o apresentador Camden Bucey conduziu uma profunda conversa com o Dr. Donald John MacLean, presidente do Westminster Seminary UK e curador do Banner of Truth Trust. O diálogo centrou-se na nova edição da clássica obra The Theology and Theologians of Scotland, escrita pelo reverendo James Walker. A conversa lançou luz sobre o intrincado desenvolvimento histórico, dogmático e pactual do presbiterianismo escocês.
O Contexto da Teologia Escocesa: Perseguição e Excelência
A obra de Walker teve sua origem nas Cunningham Lectures, uma das séries de palestras teológicas mais prestigiadas da Escócia, geralmente ministradas pelos maiores expoentes da teologia da época. Por causa de graves problemas de saúde adquiridos logo após a entrega do material, Walker não conseguiu finalizar as notas da obra em vida. A nova edição do Banner of Truth preenche essa lacuna com notas de rodapé rigorosas, um prefácio biográfico novo e as necessárias traduções de textos em latim para tornar o material acessível ao leitor moderno.
Um aspecto fascinante destacado por Walker é a constatação de que a Igreja Escocesa, mesmo em seu primeiro século de lutas quase incessantes, conseguiu forjar teólogos protestantes de classe mundial, equivalentes às grandes mentes da Europa continental. Essa excelência formou-se em meio ao cadinho da oposição estatal: sempre sob perseguição e ameaça, os grandes teólogos escoceses muitas vezes acabavam exilados no continente, passando anos na Inglaterra, em Genebra ou na Holanda. Isso os armou dogmaticamente e conferiu à teologia escocesa um caráter profundamente internacional, livrando-a de se tornar um movimento paroquial.
A Evolução do Estudo Teológico: Dos Pais da Igreja aos Debates Reformados
Ao traçar a trajetória do calvinismo escocês, a obra evidencia uma mudança de foco entre o período inicial e as fases posteriores. No século XVII, gigantes como Samuel Rutherford e James Durham demonstravam profunda dependência dos Pais da Igreja. O engajamento com pensadores como Agostinho era tão profundo que se dizia que James Durham "vivia tanto entre os Pais da Igreja que bem poderia ter sido um deles", manifestando uma genuína apreensão da catolicidade histórica da Igreja de Cristo.
Contudo, teólogos do início do século XVIII, como Thomas Boston, começaram a se distanciar gradativamente dessa forte fundamentação patrística. Dr. MacLean aponta que isso se deveu, em grande parte, às restrições geradas pelas brutais perseguições do período dos Covenanters, aliadas ao fato de que já havia um enorme acervo de debates dogmáticos intra-reformados a ser assimilado.
Debates Teológicos Profundos na Tradição Escocesa
Os pensadores escoceses do passado não fugiam das controvérsias espinhosas que hoje muitos evitam. A erudição dogmática desses homens é explorada na obra por meio de três discussões proeminentes:
A Providência e o "Physicus Concursus"
Para entender a doutrina da providência e como Deus ordena todas as coisas, esses teólogos aprofundaram-se no conceito filosófico do physicus concursus (concorrência física). Eles debatiam intensamente como Deus pode ser a causa primária e sustentadora de todas as coisas sem, todavia, tornar-se o autor do pecado. O consenso era de que Deus fornece a força e o poder existencial para a realização de todo ato natural (como balançar um machado), mas a intencionalidade moralmente perversa associada a esse ato não é de autoria divina.
A Expiação e a Justiça Punitiva (Justitia Punitiva)
A obra de Walker documenta divergências acentuadas entre os próprios luminares escoceses, como na questão da necessidade da expiação. Samuel Rutherford argumentava que a justitia punitiva (justiça punitiva) não era essencial à natureza divina, mas sim que Deus punia o pecado livremente, temendo que forçar essa essencialidade anulasse a liberdade de Deus na administração da graça. Aproximadamente um século depois, Thomas Boston defendeu rigorosamente o oposto: se a justiça vingativa não fosse essencial, o próprio caráter moral de Deus seria colocado em cheque. Boston foi fortemente amparado no teólogo inglês John Owen, que havia abandonado a premissa de Rutherford exatamente para conseguir combater com eficácia a heresia sociniana.
A Controvérsia de Marrow e a Teologia Pactual
Abordando a famosa Controvérsia de Marrow, James Walker descreve surpreendentemente os defensores da oferta livre do evangelho (os Marrow Men) como "redencionistas particulares extremos", apesar de a oposição histórica frequentemente tentar acusá-los de promover redenção universal. A razão para isso reside na arquitetura de sua teologia pactual: enquanto Rutherford estruturava o tema a partir de três pactos (Obras, Graça e Redenção), Boston defendia apenas dois (Obras e Graça). Para Boston, o Pacto da Graça referia-se, essencialmente, à própria transação eterna entre as pessoas da Trindade, deixando a execução prática da oferta do evangelho no tempo vinculada a uma "disposição testamentária" indefinida para todos.
A Igreja e o Estado na Visão Escocesa
Historicamente, devido à perseguição, os escoceses devotaram parte substancial do seu gênio teológico para a eclesiologia e as relações com os poderes civis.
A Unidade Visível da Igreja
Walker ressalta como os teólogos do século XVII enxergavam a igreja visível como um totum integrale (um todo integrado): a participação de um crente na congregação local significava a participação corporativa em toda a igreja. A ideia de iniciar divisões denominacionais em uma mesma cidade (como presenciamos hoje) não passava pelas mentes de teólogos como Rutherford. Estabelecer uma igreja à parte era o mesmo que declarar, implicitamente, que a assembleia oposta era uma igreja falsa. O Dr. MacLean provoca a reflexão moderna, lembrando que presbiterianos contemporâneos parecem ter abraçado uma mentalidade congregacional baseada apenas na preferência mútua, perdendo a noção essencial e bíblica do mandamento de uma unidade conexional visível.
O Erastianismo e a Coroa de Cristo
O embate contra a tirania do Erastianismo – a crença e tentativa prática do Estado em se sentar acima e presidir sobre a Igreja, governando excomunhões e cerimônias – foi fulcral para a tradição escocesa. Contra isso, levantou-se a defesa enérgica do Reino de Cristo, como posteriormente expresso na Confissão de Fé de Westminster: Jesus instituiu na Sua Igreja um governo eclesiástico distinto do magistrado civil. Em conversas modernas sobre "nacionalismo cristão", é necessária prudência hermenêutica: teólogos vitorianos subsequentes já reconheciam os riscos de se tentar copiar ipsis litteris as interações perigosas entre Igreja e Estado feitas nos séculos XVI e XVII, recomendando-se uma perspectiva histórico-redentiva robusta para não igualar de forma inapropriada Estados modernos à teocracia de Israel.
Conclusão
A história redigida por James Walker demonstra a profundidade da formação intelectual escocesa e o seu compromisso incansável em refinar cada aspecto do tesouro dogmático. Para aqueles que desejam avançar no tema, obras citadas por MacLean como Scottish Theology de John Macleod e A Scottish Christian Heritage de Iain Murray figuram como leituras essenciais. Reavaliar clássicos históricos, sem fechar os olhos para os possíveis erros e desacertos do passado humano desses homens, é a forma mais salutar de cultivar hoje as sólidas doutrinas de Rutherford, Boston e da ortodoxia reformada.
Fonte: Artigo adaptado do episódio 956 do podcast Christ the Center, produzido pelo Reformed Forum. Participantes: Apresentado por Camden Bucey em entrevista com o Dr. Donald John MacLean. Referência Principal: Livro The Theology and Theologians of Scotland, de James Walker (Nova edição pela editora Banner of Truth).

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