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Roma e as marcas de uma verdadeira Igreja

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    Os Puritanos
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Roma e as marcas de uma verdadeira Igreja

 

Durante a cerimônia do batismo na igreja Católica Romana, o padre batiza o bebê
Durante a cerimônia do batismo na igreja Católica Romana, o padre batiza o bebê

Um dos grandes debates na igreja presbiteriana americana do século XIX girou em torno do batismo católico romano.[1] Como muitas pessoas estavam emigrando para os Estados Unidos vindas de países católicos romanos e algumas delas procuraram tornar-se membros de congregações presbiterianas, uma antiga questão voltou a impor-se à igreja: "O batismo católico romano é válido?"

 

Os presbiterianos perceberam que, para responder a essa pergunta, precisavam responder a uma pergunta mais fundamental: "Roma é uma verdadeira parte da igreja visível de Cristo?"[2] Se Roma é uma igreja verdadeira, então seus sacramentos são válidos, e os presbiterianos devem reconhecer esse fato quando recebem em sua membresia alguém que tenha sido batizado na Igreja Católica Romana. Mas, se Roma não é uma igreja verdadeira, então seus sacramentos não são válidos. Nesse caso, alguém que recebeu o batismo católico romano não teria recebido o batismo cristão. Essa pessoa precisaria ser batizada ao ser recebida na igreja presbiteriana.[3]

 

Os presbiterianos debateram a validade do batismo católico romano ao longo do século XIX e continuam a debater essa questão até hoje.[4] A questão subjacente permanece a mesma: Roma possui as marcas da verdadeira igreja? Para responder a essa pergunta, duas outras precisam ser respondidas. Primeiro: quais são as marcas da igreja? Segundo: Roma possui essas marcas?

 

Quais são as marcas da igreja? À primeira vista, parece que a tradição reformada discorda de si mesma nesse ponto. A Confissão de Fé de Westminster diz que “A igreja visível... consiste de todos aqueles que, pelo mundo inteiro, professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos” (25.2). Há uma marca da igreja: a profissão da verdadeira religião.[5] Mas a Confissão Belga identifica três marcas da igreja: “a doutrina pura do Evangelho”, “a administração pura dos sacramentos” e “a disciplina eclesiástica” (art. 29). Então, há uma marca ou três? Francis Turretin observou que essa distinção não representa uma diferença real: "é tudo a mesma coisa".[6] Se uma igreja professa a verdadeira religião, ela administrará os sacramentos e exercerá a disciplina de acordo com a Palavra de Deus.[7]

 

Roma possui essa marca da igreja? A maneira de responder a essa pergunta não é examinar o perfil do Papa Francisco nas redes sociais, nem descobrir o que o padre da paróquia católica romana pregou em sua homilia de domingo. Para encontrar a resposta, é preciso consultar aquilo que Roma confessou oficialmente. Uma das declarações definidoras mais importantes da Igreja Católica Romana é a do Concílio de Trento, que se reuniu entre 1545 e 1563.[8] Os Decretos e Cânones de Trento constituem a resposta oficial de Roma à Reforma Protestante. Eles oferecem uma visão especialmente reveladora da reação institucional de Roma à doutrina da justificação somente pela fé.

 

O Decreto de Trento sobre a justificação constitui uma exposição positiva da compreensão de Roma acerca dessa doutrina. É, porém, em seus Cânones sobre a Justificação que Trento expressa seu desacordo com aquilo que Roma entendia ser o ensino dos Reformadores. Em seguida, condena essas posições por meio da fórmula: “seja anátema” (maldito).[9] Alguns desses cânones são especialmente reveladores.

 

Cânone 7. Se alguém disser que todas as obras realizadas antes da justificação, não importa como foram realizadas, são verdadeiramente pecados ou merecem o ódio de Deus; ou que, quanto mais seriamente alguém tenta se dispor para a graça, mais gravemente ele peca, seja anátema.

 

Cânone 9. Se alguém disser que o pecador é justificado somente pela fé, no sentido de que nada mais é exigido por meio de cooperação a fim de obter a graça da justificação, e que não é de forma alguma necessário que ele seja preparado e disposto pelo movimento de sua vontade, seja anátema.

 

Cânone 11. Se alguém disser que os homens são justificados somente pela imputação da justiça de Cristo ou somente pela remissão dos pecados, excluindo a graça e a caridade que são derramadas em seus corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5.5) e lhes são inerentes, ou ainda que a graça que nos justifica é apenas o favor de Deus, seja anátema.

 

Cânone 12. Se alguém disser que a fé que justifica nada mais é do que a confiança na misericórdia divina que remite os pecados por causa de Cristo, ou que somente essa confiança nos justifica, seja anátema.

 

Embora seja difícil ver os Reformadores falando de "obras", "fé somente" ou "imputação" precisamente nesses termos, há elementos suficientes da doutrina dos Reformadores para concluir que Roma deliberadamente anatematizou a doutrina reformada da justificação somente pela fé.[10]

 

Não se trata simplesmente de a Igreja Católica Romana tolerar erros — mesmo erros graves — em seu interior. Antes, Roma, consciente e oficialmente, anatematizou elementos centrais do evangelho, deixando de poder ser reconhecida como parte da igreja visível. Além disso, Roma jamais revogou esses anátemas; eles permanecem sendo sua posição oficial até hoje.[11]

 

Neste ponto, poderíamos abordar uma série de outras questões. Roma administra fielmente a Ceia do Senhor? Roma exerce adequadamente a disciplina eclesiástica? Seus clérigos são verdadeiros oficiais da igreja cristã? Mas todas essas questões decorrem da mais importante: o que Roma fez com a "verdadeira religião"? Não pode haver dúvida quanto à resposta. Ela pronunciou uma maldição sobre o evangelho proclamado por Martinho Lutero, João Calvino e seus descendentes teológicos.

 

Isso não significa, de forma alguma, negar que Roma preservou muita verdade em seu interior, nem duvidar de que possa haver cristãos genuínos na comunhão romana. Tampouco significa negar que os católicos romanos tenham sido aliados importantes dos protestantes em algumas das grandes lutas culturais de nossos dias. Mas é necessário traçar linhas claras para salvaguardar a integridade do evangelho bíblico que cremos, proclamamos e amamos.

Guy Waters

O Dr. Waters ocupa a Cátedra James M. Baird Jr. de Novo Testamento no Reformed Theological Seminary, em Jackson, Mississippi. Presbítero docente na PCA, é autor ou organizador de dez livros, entre eles Justification and the New Perspectives on Paul: A Review and Response.


Notas

[1] Para um resumo das ações da Igreja Presbiteriana neste período de tempo, consulte J. Aspinwall Hodge, What Is Presbyterian Law As Defined By Church Courts? (7ª ed.; Filadélfia: Presbyterian Board of Publication, 1894), 84–85, e J. D. Leslie, Presbyterian Law and Procedure in the Presbyterian Church in the United States (Richmond: Presbyterian Committee of Publication, 1930), 303–304.


[2] A linguagem citada é a da Assembleia Geral do PCUS de 1871, conforme citado em Leslie, Presbyterian Law and Procedure, 304. Essa Assembleia, em particular, declarou que Roma não era uma verdadeira parte da igreja visível. As assembleias da Igreja Presbiteriana Americana vêm abordando essa questão desde, pelo menos, 1835.


[3] É importante ressaltar que o que está em vista não é o rebatismo. Todas as tradições reformadas concordam que “o sacramento do Batismo deve ser administrado apenas uma vez a qualquer pessoa” (CFW 28.7). Aqueles que consideram inválido o batismo católico romano entendem que quem o recebeu nunca recebeu, de fato, o batismo cristão.


[4] Se Roma não é uma igreja verdadeira, como será argumentado a seguir, então seu batismo não é cristão. Por essa razão, concordo com aqueles presbiterianos que não recnhecem o batismo católico romano como batismo cristão.

 

[5] James Bannerman, The Church of Christ (2 vols.; 1868; reimp. Edinburgh: Banner of Truth, 1960), 1:62.


[6] Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, trad. James T. Dennison Jr. (3 vols.; Phillipsburg, NJ: P&R, 1992–1997), 3:87.


[7] Ibid.

 

[8] Para o texto completo, em latim e inglês, de Trento, consulte Heinrich Denzinger, Compendium of Creeds, Definitions, and Declarations on Matters of Faith and Morals, eds. Peter Hünermann, Robert Fastiggi e Anne Englund Nash (43ª ed.; San Francisco: Ignatius, 2012), 368–413.

 

[9] A fórmula latina anathema sit conclui cada um desses cânones.

 

[10] Ao ler os demais Cânones sobre a Justificação de Trento, percebe-se, entretanto, que seus autores entenderam que a Reforma ensinava o antinomianismo (ver os Cânones 18, 19, 20 e 21).

 

[11] Tampouco poderiam ser revogados sem comprometer fatalmente a alegação de infalibilidade de Roma.

 

 

 

 

 

 
 
 

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O Projeto Os Puritanos é um ministério sem fins lucrativos, nascido há mais de 25 anos e comprometido com as Escrituras Sagradas e com a exposição sistemática das verdades bíblicas conhecidas como a fé Reformada. O próprio nome "Os Puritanos" sinaliza claramente que nossa teologia tem sido e continua a ser conformada aos documentos teológicos conhecidos como a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos, em harmonia com os ricos tesouros dos credos e confissões da histórica tradição Reformada — as Três Formas de Unidade (Confissão Belga, Catecismo de Heidelberg e os Cânones de Dort).

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