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Filosofia ou evangelho: o que proporciona a reconciliação entre Deus e o pecador?



No meio filosófico diz-se sempre que “A Filosofia é um cego num quarto escuro, procurando um chapéu preto que não está lá. A Teologia é o chapéu preto”. Esta é a concepção que a Filosofia tem da Teologia. Isto deve-se ao fato da Filosofia tratar apenas de categorias racionais, enquanto que a Teologia inclui a categoria revelacional. Filósofo que se preze não dá ouvidos à revelação, pois já não seria mais filósofo e sim teólogo. Na modernidade, há vários ramos de estudos dentro da Filosofia que dão tanta ênfase ao místico e ao esotérico, que nos enganariam como se tratassem de “revelação”, porém nada têm a ver com a idéia bíblica de revelação, mas referem-se sempre ao estudo de categorias antropológicas. Razão e revelação jamais puderam se unir. Filosofia e Teologia nunca tiveram amor perfeito. Nunca houve, na história do cristianismo, uma união entre Filosofia e Teologia sem prejuízo para as duas. A Filosofia sempre indagou questões existenciais e sempre procurou o sentido da vida pelos meios racionais. A Teologia sempre deu estas respostas por meios revelacionais, mas a Filosofia nunca as aceitou, nem as pode aceitar, pois do contrário ela deixaria de ser Filosofia e passaria a ser Teologia.


Não é de se estranhar que hoje algumas igrejas presbiterianas estão querendo fazer um casamento tão desastroso entre Teologia e Filosofia, achando que em nada vão ferir a fé cristã, nem tampouco a Filosofia, pois como a História se repete, Clemente e Orígenes já tentaram fazer isso muito antes de Agostinho e Tomás de Aquino. A Teologia alexandrina, produzida por Clemente e Orígenes consistia em pura Filosofia grega vestida de evangelho, que no final não era uma coisa nem outra, tornando-se assim em uma monstruosidade que não era peculiar nem à revelação (por conter elementos puramente racionais), nem à razão (por conter elementos revelacionais). A Teologia alexandrina tornou-se intragável para filósofos e teólogos. A verdade mostrada através dos séculos é que essa união nunca deu certo, e que sempre provocou desastres à Igreja cristã. A última das provas do que estamos falando começou no século XIX com Schleiemacher e seus discípulos, quando tentaram produzir uma explicação racional para a religião. O resultado do empreendimento de Schleiemacher foi uma filosofia da religião que roubou a glória de Cristo e a fé dos homens. Seu pensamento, refletido em vários outros teólogos contemporâneos, abateu profundamente as missões e a evangelização cristãs em muitos lugares na Europa daquela época. Os templos esvaziaram-se por causa da pregação filosófica, e os cristãos só começaram a retornar às igrejas com a pregação de Barth (neo-ortodoxo, mas foi considerado como ortodoxo para sua época) porque trouxe a Bíblia de volta para o púlpito.

Tudo isso aconteceu porque Filosofia nada tem a ver com fé. Fé não tem explicação filosófica. Fé não é um assentimento intelectual (Tomás de Aquino), e sim confiança (Calvino). Este foi um dos pontos que Calvino utilizou para combater o Concílio de Trento. Nenhum filósofo tem fé. Ele apenas acredita nas coisas enquanto sua razão lhe fornece razões para acreditar. No momento em que as razões não mais existem, ele já não crê mais em nada. Ao contrário disso, a fé trabalha com categorias que não existem para a razão, nem para os sentidos (Hb 11:1). Portanto, este tipo de fé os filósofos não têm, nem a Filosofia pode pregá-la. Creio que esta questão é a “coluna vertebral” do problema. Filósofo ou teólogo que se preze não pode perder de vista esta questão. Ninguém poderá ser teólogo e filósofo, sem abdicar de elementos essenciais às categorias de ambas. A História tem mostrado isso repetidamente.


O que dizer das “tardes filosóficas” hoje dentro das igrejas?


Na verdade, o debate filosófico redunda em muitas formas de conhecimentos, muitos deles até proveitosos para a vida humana, mas isso não significa que ele é essencial à fé cristã. Eis algumas razões:


1) A Filosofia, em relação ao cristianismo, corresponde à forma mais atrasada e primitiva de busca pela verdade. Os princípios de sabedoria existencial questionados pela Filosofia até os dias de hoje já foram revelados aos eleitos de Deus como “a verdade revelada”(Lc 10:21). Os crentes já não andam mais peripatéticos como os filósofos em busca da verdade. Paulo diz que enquanto os gregos buscam sabedoria, os crentes já estão pregando a Cristo (I Co 1:22,23).


2) O meio de Deus revelar-Se salvadoramente ao homem não foi através da razão, (I Co 1:21), e sim da revelação. Alguns teólogos dos primeiros séculos cristãos achavam que os gregos alcançaram racionalmente as mesmas verdades reveladas a Israel e à Igreja. Mas esse nunca foi o ponto de vista de Paulo e dos outros escritores bíblicos. A Filosofia grega chamava o Evangelho de “loucura”, o que acontece ainda nos dias atuais, pelo fato do Evangelho não se adequar às exigências da razão. Paulo disse que foi exatamente através aquilo que os gregos chamaram de “loucura” que Deus resolveu salvar os pecadores.


3) Em matéria de fé a Filosofia nada tem a nos ensinar. A Filosofia sempre foi “oca” em matéria de fé. Fé nunca foi um discurso filosófico, e sim teológico. Os homens nunca conhecerão a Deus pela Filosofia, pois a sabedoria humana não revela Deus (I Co 1:21). Paulo diz que o discurso filosófico é fraco e impotente para falar sobre Cristo (I Co 1:25-29), e que a loucura do Evangelho envergonha a Filosofia.


4) É o Evangelho que traz a verdadeira reconciliação entre Deus e o pecador, e não a Filosofia (Rm 1:16,17). Paulo diz que a justiça de Deus se revela no Evangelho e não na Filosofia. Como poderão os pecadores ser verdadeiramente reconciliados com Deus, através de debates filosóficos ou através da pura e simples pregação do Evangelho? Os homens nunca serão salvos se não conhecerem verdadeiramente Jesus, que é a justiça de Deus; Este se faz presente no Evangelho.


5) Não são os filósofos que devem discursar para os cristãos, e sim os cristãos que devem pregar para os filósofos. As “tardes filosóficas”, “noites filosóficas”, e “encontrão filosófico” promovidos por algumas igrejas presbiterianas nada mais são do que convidar um ateu para pregar para crentes. Os homens que não conhecem a Cristo nunca deveriam estar na frente do povo de Deus para ensinar-lhe sobre fé ou religião. Isto nunca foi uma prática apostólica, e sempre foi repugnante aos olhos de Deus. Na maioria das vezes o povo não tem competência racional para refutá-los, e acabam sempre concordando com coisas que nem sequer conhecem. Quando presbiterianos convidam Frei Beto para discursar-lhes sobre fé e religião, é porque eles já estão tão áridos em relação à mensagem do Evangelho que até o discurso de Augusto Comte sobre a religião será crido como verdade. Quando o povo de Deus começar a abandonar a revelação para buscar a verdade na Filosofia é porque seus olhos ficaram cegos e seus corações se tornaram endurecidos para o Evangelho de Cristo.


Às igrejas que promovem tais encontros pergunto: Têm os filósofos conhecido a Cristo nessas igrejas, ou são eles que têm convencido as igrejas de suas verdades filosóficas?


Moisés C. Bezerril

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SOBRE OS PURITANOS

 

O Projeto Os Puritanos é um ministério sem fins lucrativos, nascido há mais de 25 anos e comprometido com as Escrituras Sagradas e com a exposição sistemática das verdades bíblicas conhecidas como a fé Reformada. O próprio nome "Os Puritanos" sinaliza claramente que nossa teologia tem sido e continua a ser conformada aos documentos teológicos conhecidos como a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos, em harmonia com os ricos tesouros dos credos e confissões da histórica tradição Reformada — as Três Formas de Unidade (Confissão Belga, Catecismo de Heidelberg e os Cânones de Dort).

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