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Morte Natural e Morte Espiritual Comparadas » John Owen


Vale de ossos

Os não regenerados jazem num estado de morte espiritual. Para se tornarem vivos precisam que seja realizada uma obra poderosa e eficaz do Espírito Santo em sua alma. Essa obra é a regeneração espiritual (Ef 2.1, 5; Cl 2.13; 2Co 5.14) e é chamada de “animar”, ou de conceder-lhes vida (Ef 2.5; Jo 5.21; 6.63).

Esse estado de morte é tanto judicial quanto espiritual. Toda a humanidade por meio de Adão foi, pela lei, sentenciada à morte (Gn 2.17; Rm 5.12). Esta é a morte legal ou forense e é somente por meio da justificação que somos dela libertados. A morte espiritual é semelhante à morte natural. É por estarem espiritualmente mortos que os não regenerados não podem fazer bem espiritual nenhum, senão até serem “animados”, receberem vida, pelo poder onipotente do Espírito Santo. Nenhum não regenerado pode resistir ao Espírito Santo quando ele assim opera. Quando alguém que jaz morto em delitos e pecados é animado, recebe vida. Torna-se vivo em Cristo. Mas o que é essa nova vida espiritual?

Quando criou Adão, Deus “lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7). O princípio da própria vida foi soprado no corpo do homem por Deus, que continua a fazer assim em cada criança nascida no mundo.

O “fôlego da vida” ou alma, soprado no corpo, “animou” ou “deu vida” àquele corpo que até então jazia como morto e incapaz de se mover. A alma tornou-se apegada ao corpo e fê-lo viver, se mover e ter o seu ser.

A vida é vista por suas atividades. É contrastada com a morte que há nos ídolos (Sl 115.4-7). Essas atividades da vida, procedentes do caráter racional do homem, a saber, de seu entendimento e vontade, demonstram que ele foi criado como um agente vivo, livre e moral.

A morte natural é a separação da alma do corpo. Quando todas as atividades vitais cessam e a alma é separada do corpo, então ocorre a morte. O corpo é completamente incapaz de realizar qualquer atividade necessária à vida. Mas permanece na morte uma capacidade latente, passível de receber vida de novo. Assim como foi o caso de Lázaro, que estava completamente incapacitado de levantar-se da morte por si mesmo, a vida só nos pode ser restaurada por Jesus Cristo.

Vida espiritual e morte espiritual

Adão, no estado de inocência possuía também, além da sua vida natural como alma vivente, uma vida sobrenatural. Essa vida sobrenatural capacitava-o a viver para Deus. Isso é chamado “a vida de Deus” (Ef 4.18). É dessa vida que os homens em seu estado natural estão alienados. Assim, pois, o homem natural não pode mais fazer aquilo que Deus requer. Não pode mais viver para agradar a Deus. Não pode mais cumprir o propósito para o qual Deus o criou. Mas na sua criação original Adão fora capacitado a viver para a glória de Deus e poderia depois ter entrado no completo gozo de Deus. Gozar a Deus para sempre lhe fora apresentado como o ápice da felicidade e como a mais alta recompensa que lhe poderia ser concedida.

Havia um princípio doador de vida pertencente a essa vida soprada no corpo de Adão. Esse princípio era “a imagem de Deus”. Pelo poder dessa imagem de Deus nele, Adão foi tornado capaz de ser como Deus. A sua mente, vontade e coração eram dirigidos e governados pelo amor à santidade e à justiça de Deus (Gn 1.26, 27; Ec 7.29).

Todo o propósito da vida de Adão era viver para agradar e glorificar a Deus. Deus lhe ensinou isso ao lhe impor uma aliança (Gn 2.16, 17). Adão recebeu toda a aptidão espiritual necessária para ser capaz de viver para Deus e glorificá-lo.

O princípio regente dessa vida estava total e completamente no próprio homem. Procedia da boa vontade e poder de Deus, mas fora implantado no homem para que não crescesse sobre outra base senão aquela que estava nele mesmo (Cl 3.3, 4; Rm 6.4; 8.11; Gl 2.20).

A vida espiritual em Adão pode ser comparada àquela vida espiritual que temos em Cristo. A nova vida em Cristo tem a ver com a revelação que Deus fez de si mesmo em Cristo. Como consequência, novos deveres de obediência são exigidos de nós. Mas são do mesmo tipo dos que eram requeridos de Adão (Ef 4.23, 24; Cl 3.10).

Todos os homens nascem espiritualmente mortos, jamais tendo aquela vida de Deus que Adão teve. Eles a tinham em Adão, e em Adão a perderam.

A natureza da morte espiritual

Essa morte espiritual é a perda da vida espiritual que nos capacita a viver para Deus. Assim como o corpo não pode viver sem a alma, a alma também não pode viver para Deus sem aquela vida espiritual. Sem ela a alma torna-se moralmente corrupta (Rm 8.7, 8; Jo 6.44; Mt 7.18; 12.33; Jr 13.23).

Assim como o corpo só possui a condição passível de receber vida, pois não pode dar vida a si mesmo e levantar-se da morte, assim também a alma só tem a condição passível de receber vida espiritual, pois não possui nenhum poder para regenerar a si mesma da morte espiritual para a vida espiritual.

Exortações, promessas e ameaças da Escritura não nos dizem aquilo que podemos fazer, mas o que devemos fazer. Elas nos mostram o nosso estado de morte espiritual e nossa incapacidade para fazer qualquer bem espiritual. Deus se apraz em fazer dessas exortações e promessas os meios pelos quais podemos receber vida espiritual (Tg 1.18; 1Pe 1.23).

A incapacidade de viver para Deus decorre do pecado (Rm 5.12). As pessoas não regeneradas têm a condição para fazer algo em direção à regeneração, mas negligenciam isto, pecando assim deliberadamente. Embora não possam viver para Deus, podem, resistir-lhe, e assim o fazem porque a mente depravada deles está alienada da vida de Deus. Os não regenerados optam livre e malignamente por desobedecerem a Deus.

Jesus se queixou: “não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo 5.40). Há nessa morte a cessação de todas as atividades vitais. Não regenerados não podem realizar nenhuma atividade vital que se possa chamar de obediência espiritual. A verdadeira obediência espiritual brota da vida de Deus (Ef 4.18). A regra dessa obediência é “as palavras desta Vida” (At 5.20). Onde não existir essa vida de Deus, as obras dos homens serão “obras mortas” (Hb 9.14). São obras mortas porque procedem de um princípio regente de morte (Ef 5.11) e terminam em morte eterna (Tg 1.15).

Vida espiritual: sua origem e concessão

Deus é a origem de toda vida e especialmente dessa vida espiritual (Sl 36.9). Assim, pois, a nossa vida “está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Cl 3.3).

A nossa vida espiritual difere totalmente de qualquer outro tipo de vida. Ela não nos é concedida diretamente de Deus, mas é em primeiro lugar depositada em sua plenitude total em Cristo como mediador (Cl 1.19). É, portanto, da sua plenitude que recebemos essa vida (Jo 1.16). Assim, Cristo é a nossa vida (Cl 3.4). Por isso, não é tanto que nós vivamos, mas é Cristo que vive em nós (Gl 2.20). Nada podemos fazer de nós mesmos, mas somente pelo poder e virtude de Cristo (1Co 15.10).

A origem dessa vida está em Deus; a sua plenitude está em Cristo; e ela nos é concedida pelo Espírito Santo. Nós a vivenciamos como uma capacidade e princípio regente novos (Rm 8.11; Ef 4.15, 16). Cristo é a nossa vida e sem ele nada podemos fazer (Jo 15.5). A vida espiritual que nos foi comunicada pelo Espírito Santo ainda está também em Cristo. É por meio dela, portanto, que estamos ligados a Cristo assim como um galho que, ligado a árvore, dela deriva a sua vida e não pode viver dela separado (Jo 15.4).

Essa vida espiritual nos é transmit