Calvino e seu combate contra o Natal

1536 - Quando Calvino chegou em Genebra, a observação de dias santos já havia sido abolida por Farel e Viret. "Antes de eu entrar na cidade, não havia festivais, com exceção do “dia do Senhor" [culto semanal], escreveu Calvino.
1537 - Calvino e Farel apresentaram seus artigos sobre a Organização da Igreja e seu culto em Genebra. A Ceia do Senhor era para ser celebrada semanalmente ou até com mais frequência, mas esta mudança era para ser gradualmente introduzida por uma observância mensal. Significativamente, sem dias santos mencionados nesses artigos, em conformidade com a prática existente da cidade.
1538 - A cidade de Genebra tinha descido a um tumulto político e eclesiástico. Parte do problema envolvia a relação entre a igreja em Genebra com a igreja em Berna. Os Berneses desejavam que os genebrinos se conformassem com as suas próprias práticas em três detalhes: o batismo de fontes, pão sem fermento na ceia, e à observância dos quatro "grandes festivais": Natal, Páscoa, Ascensão e Pentecostes.
Calvino e muitos dos outros ministros se posicionaram contra as tentativas do governo (libertinos e outros) da cidade de Genebra para impor essas mudanças sobre a igreja de Genebra. Essa oposição foi capitalizada pelos ministros inimigos em Berna e Genebra, e por vereadores inimigos em Genebra, que viu nesta controvérsia uma oportunidade de livrar-se de Calvino e sua disciplina eclesiástica rigorosa, e para expandir suas carreiras políticas, promovendo a união com Berna.
Não muito tempo depois, Calvino apelou ou protestou publicamente contra o conselho de Genebra ao qual chamou de um "conselho do diabo". Ele foi expulso da cidade. Com a expulsão de Calvino, o conselho de Genebra instituiu as cerimônias Berneses na igreja de Genebra, incluindo os quatro dias de festa. Com relação a isso, Calvino escreveu: "Aqueles [festivais] comemorados por vocês foram aprovados pelos mesmos decretos públicos pelos quais eu e Farel fomos expulsos...”,
Calvino e Farel temiam que Genebra retrocedesse muito em direção ao mal após as suas expulsões. Na verdade, eles temiam que a cidade retornasse às práticas do Romanismo, as quais tanto Calvino e Farel combateram arduamente e, com isso, a causa e o progresso da Reforma em Genebra seria perdida e o nome de Cristo gravemente desonrado. Em desespero, Calvino pediu ao sínodo em Zurique, concordando com a adoção das cerimônias Berneses, contudo, mesmo assim, apenas com certas condições. Essas tentativas de reconciliação falharam, e Farel e Calvino permaneceram expulsos da cidade que tinham tão fielmente trabalhado para reformar e firmar a Suficiência das Escrituras.
1539 - Os problemas novamente eclodiram entre Genebra e Berna com o resultado de dois dos quatro síndicos que se opunham. Calvino e Farel fugiram de Genebra e foram sentenciados à morte. Eles foram substituídos por partidários de Calvino. Os dois outros síndicos que se opunham a Calvino, ambos morreram em 1540 em circunstâncias extremamente desonrosas. Dois dos ministros que se opunham a Calvino partiram logo em seguida.
1541 - Tudo isso pavimentou o caminho para o retorno de Calvino. Com a condição do seu regresso, um governo da igreja resolveu formular um acordo. O “ecclesiastiques Ordonnances” foi preparado por uma comissão de ministros e vereadores em 1541 e passou por um processo de revisão e ratificação pelos três níveis de governo civil em Genebra, e, em última análise, se tornando lei. Calvino tinha procurado implantar uma observância mensal da ceia (o mínimo), mas foi frustrado em seus desejos. A versão final do “Ordonnances” havia estabelecido "que deve ser administrada quatro vezes por ano, ou seja, no Natal , Páscoa, Pentecostes, e no primeiro domingo de setembro, no Outono", e também garantindo a observação continuada dos quatro festivais. A partir deste momento em diante, Calvino deveria manter essa ordem em Genebra.
Alguns pesquisadores chegaram à conclusão de que era prática normal de Calvino não interromper sua série de exposições regulares com sermões especiais dedicadas às observâncias sazonais, uma prática que poderia indicar uma completa falta de respeito para o calendário do festival [isso te lembra algo?].
1549 - Calvino foi definitivamente interrompido de dar seguimento às suas exposições normais para trazer sermões que combinavam com o calendário eclesiástico estabelecido pela “Ordonnances” de 1541. Calvino trouxe sete sermões ao longo de sete dias sobre a paixão e ressurreição de Cristo [Páscoa: No Novo Testamento, Cristo é a nossa Páscoa, uma vez que o Cordeiro de Deus fora imolado de uma vez por todas], um sermão de Pentecostes especial e um sermão sobre natividade de Cristo para a ceia no Dia de Natal.
1550 - Calvino pregou oito sermões, de domingo a domingo, novamente na “paixão de Cristo” para a semana da “Páscoa”. Essa prática logo acabou. Em 16 de novembro de 1550, o Conselho votou novamente para eliminar os dias de festa. O Registro dos pastores em Genebra: “...um edital anunciou a revogação de todos os festivais, com a exceção dos “domingos que Deus tinha ordenado" [Deus nunca ordenou a observância do domingo]. Surpreendentemente, esta mudança resultou em outra grande controvérsia com Berna.
Há uma carta importante, escrita em 02 de janeiro de 1551, em que Calvino explica sua relação com a opinião a respeito dessas mudanças em Genebra. Ele, de fato, nega ser o autor ou instigador da mudança, e sustenta que ele não foi consultado sobre isso. (Rumores eram abundantes de que ele foi o responsável pela decisão).
Mas, devemos nos certificar de que todo o propósito da carta não é para reclamar sobre a mudança. Ele diz a seu correspondente que: "apesar” da decisão, “ele não lamentava por isso", e aconselha que se ele "soubesse o estado das nossas igrejas assim como eu, [ele] não hesitaria em assinar o meu julgamento; “...que o abandono das festas foi apenas o "uso de nossa liberdade como a edificação da igreja ... e que, se um certo Bernese ministro não agiu por ambição pessoal numa ocasião anterior, "dias de festas poderiam ter sido abolidas naquela província inteira”.
Mas a questão permanece: Por que Calvino disse que não teria aconselhado a tomar esta decisão se tivesse sido consultado? Gillespie responde: “Porque ele não viu o fim nem o remédio para o tumulto levantado sobre dias de festa, e, provavelmente, para impedir o curso da reforma...”.
1553 - A proibição não durou muito tempo. Encontramos Calvino novamente interrompendo o seu curso habitual para sermões sobre textos relacionados com os festivais [Calvino protestou contra o Natal publicamente em seus sermões, como será demonstrado aqui].
1557 - Calvino estava escrevendo palavras como estas: "Com relação às cerimônias e, sobretudo, à observância de dias santos, eu ofereço o seguinte: Apesar de existirem alguns que avidamente tem tempo para estar em conformidade com tais práticas [pagãs], eu não sei como eles podem fazê-lo sem desrespeito para com a edificação da igreja, nem sei como eles podem prestar contas a Deus por ter avançado o mal e impedido a sua solução". (Ironicamente, esta carta é datada de 25 de dezembro de 1557).
De que lado o debilitado e doente teólogo Calvino estava? Estaria ele do lado dos puritanos ou contra eles?
“O conteúdo geral das cartas de Calvino sobre a questão da observância dos dias santos parece indicar claramente que, embora ele estivesse pronto para TOLERAR essas celebrações controvertidas para não prejudicar o avanço da Reforma, ele mesmo não as aprovava e estranhava que outros se sentissem tão ofendidos com as reformas litúrgicas levadas a efeito em Genebra relacionadas à abolição dos dias santos”. (Paulo Anglada)
Citação de João Calvino em um de seus sermões contra o Natal:
“Vejo que há mais pessoas, aqui, hoje, do que costuma haver nos outros sermões. Por que isso? Porque é dia de “Natal”. E quem disse-lhes tal coisa? Pobres bestas. Isso é um eufemismo adequado para todos que vieram, aqui, hoje, honrar o “natal”. Pensam que honram a Deus? Consideram que tipo de obediência a Deus tens demonstrado? Em suas mentes estão celebrando um dia santo para Deus, ou, transformando-o em um. Na verdade, vocês têm sido frequentemente admoestados de que seja bom separar um dia do ano, no qual, lembramos de todo o bem ocorrido por causa no nascimento de Cristo no mundo, e ouvimos a história de seu nascimento sendo recontada, o que acontecerá no culto de domingo. Porém, se vocês acham que Jesus Cristo nasceu hoje, são tão loucos quanto bestas selvagens. Quando você engrandece somente um dia com o propósito de adorar a Deus, você simplesmente transforma-o em um ídolo. Na verdade, vocês insistem que têm feito assim para a honra de Deus, contudo, honram mais ao diabo.
Nenhum dia é superior a outro. Não importa se lembrarmos do nascimento do Senhor em uma quarta-feira, quinta-feira, ou em algum outro dia. Porém, quando insistimos em criar uma prática baseada em nossos CAPRICHOS, blasfemamos contra Deus e criamos um ídolo, apesar de termos feito tudo isso em nome de Deus. Quando você adora a Deus com ociosidade espiritual num dia “santo”, é um grave pecado para suportar, pois, isto atrai outros pecados até atingirmos a medida da iniquidade. Portanto, vamos prestar atenção ao que Miquéias (5:7-14) está dizendo aqui - que Deus não apenas despojará coisas que são más em si mesmas, como também eliminará qualquer coisa que promova superstição. Entendendo isso, não acharemos estranho o natal NÃO ser celebrado. Porém, hoje, no domingo, celebraremos a Ceia do Senhor e recitaremos a história do nascimento do nosso Senhor Jesus Cristo”.
João Calvino
Excerto do sermão em Miquéias 5:7-14
Data: 22/12/1551
Sermons on the Book of Micah, p. 302-303.
• Dados históricos concedidos publicamente por Ivan Vasconi




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